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Luiz Cesar Pimentel

"Sem Pauta": o resultado da busca de um jornalista brasileiro pelo mundo

Livro reúne histórias acumuladas em quatro anos de viagens. Leia a apresentação do autor e acompanhe, no Grupo Viagem, essas aventuras
Luiz Cesar Pimentel

Viajar exige uma opção de abordagem. Gosto, por exemplo, de pensar que cada dia fora do berço é o equivalente a sentar numa poltrona de cinema sem saber que filme irão levar. Mas, muito melhor, pois os filmes, todos, são interativos. E ainda mais interessantes se abordados livres da propalada idéia do choque cultural.

Marco Polo morreu há quase 700 anos. O mundo é redondo e qualquer região que você aponte no globo pode ser tanto o Oriente quanto o Ocidente. As nuances, essas sim, é que interessam. Não as diferenças, que são óbvias. É muito reducionista supor uma cultura hermética cercada por fronteiras. Supor que um risco no mapa delimita crenças, costumes e hábitos dos seres humanos que ali habitam.

Porque estes são maiores que sua cultura. E infinitamente maiores que o limite geográfico.

Seja chinês, mongol, tibetano, nepalês ou dinamarquês, cada sujeito é um templo construído em torno de si mesmo. É a mágica da individualidade. E a soma das nuances à raiz cultural comum é que colorem um povo. Maravilhoso é poder observar como cada pessoa se desenvolve dentro de um caldeirão de influências - aí sim podemos classificar os países, e foi isso que norteou estes diários, reportagens e análises.

Se bem que às vezes a receita dá errado por um período de tempo, como no Camboja entre 1975 e 79.

Mas às vezes é mágica, como no Tibet.

Às vezes assume um gosto próprio por rebeldia, como uma sociedade alternativa que brota no meio da milionária Copenhague, na Dinamarca.

Nesse enfoque o ser humano é pó estelar, que não se possui.

Mas não menosprezo a análise cultural de maneira nenhuma. Como definiu o antropólogo Alfred Kroeber, a "cultura é a qualidade que distingue o homem no cosmo". Compartilho a opinião.

Apenas acredito, além da antropologia, sociologia, no conhecimento empírico. Por isso os textos aqui contidos são fundamentados em seres humanos e nas suas possibilidades.

"E por que a Ásia?", que norteia a maior parte deste livro e onde passei o maior pedaço do ano de 1999.

Nunca consegui responder a contento a essa pergunta, a primeira nas conversas antes e depois da viagem.

A verdade é que eu precisava ir para a Ásia. E mais: passar uma temporada lá - já que o continente não é nenhuma estância litorânea à qual se conhece ao cabo de um final de semana. Desde pequeno, precisava ir. Um encantamento que não conseguia explicar. E quando voltei, continuei sem resposta à pergunta. A diferença é que eu sabia o porquê.

Um pouco de acanhamento contribuiu para que eu nem tentasse uma justificativa que satisfizesse à questão. Assim, respondia geralmente o básico - algo como "pela cultura", com umas variantes, e desviava para outro caminho o bate-papo. Mas a verdade estava longe disso. E necessitava da vivência para compreensão. Este "Sem Pauta" trata desse período e de viagens realizadas depois, até o ano de 2002.

Para uma abordagem mais completa, ele está dividido em três tópicos:

1. As reportagens produzidas e publicadas durante esses quatro anos. Ou seja: assuntos de maior dimensão, que justificavam maior fôlego de texto, apuração, contextualização.

2. Diários de viagem. Passagens mais leves mas que guardam força de informação, num flerte com impressões turísticas e causos, reeditadas e reunidas aqui em alguns tópicos para melhor compreensão do todo.

3. Fotos, sendo grande parte delas com o adendo de legendas mais extensas - batizadas "história por trás da foto" - que justifiquem a presença da imagem além de sua função estética.

O livro não segue uma ordem cronológica, mas foi editado para montar um roteiro lógico e possível (além de recomendável). Mas apenas por questão de curiosidade - caso você a tenha - o roteiro da viagem pela Ásia seguiu da China à Índia, passando por todo o Sudeste Asiático (Macau-Hong Kong-Vietnã-Camboja-Tailândia-Malásia-Mianmar-Bangladesh-Nepal-Tibet-Índia) com exceção do Laos e Butão. E foi bolado com uma simplicidade infantil. Um mapa-múndi e o traço de um lápis do caminho pelo Sudeste Asiático da China à Índia.

As três condições propostas foram:

1. fazer o máximo do trajeto por terra, para conhecer mais profundamente os locais, costumes, povo;

2. ter disposição profissional na viagem, tentar enxergar a tudo como jornalista, para poder extrair e vivenciar as melhores histórias, e;

3. tentar gastar em média US$ 20 por dia, incluindo passagens desde o Brasil, hospedagem e alimentação.

Felizmente, consegui as três, sem maiores perrengues.

Mesmo incluindo no trajeto estadias de preparação e finalização em Nova York e na Europa - de onde saíram alguns textos e fotos deste livro - e um arremate inesperado na Rússia. Além da viagem à Ásia, compõem este "Sem Pauta": Polônia, Equador, Dinamarca, Rússia, Holanda, República Tcheca e Alemanha.

São histórias, reportagens, causos e fotos de que me orgulho muito, e se há uma justificativa para o "por quê da Ásia" e o "por quê disso tudo" talvez seja realização. E essa realização pé na estrada tentei passar nos próximos textos.

 

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